A TECNOLOGIA NA CONVIVÊNCIA COM A SECA
José Ubiraci Alves
A convivência do homem no campo frente aos problemas trazidos pela seca na Região Nordeste do Brasil, geralmente, caracteriza-se como uma luta contínua pela manutenção do seu padrão de vida e, até mesmo, pela sobrevivência da própria família, uma vez que as opções de produção, em épocas secas, tornam-se quase nulas, quer no âmbito da agricultura, quer na criação de pequenos ruminantes. Isto ocorre na medida em que se agrava a escassez de água com a redução, acentuada, na qualidade e na quantidade de forragem nas pastagens.
A criação de caprinos e ovinos, na Região, é uma atividade básica e generalizada que permeia a grande maioria das propriedades rurais, revestindo-se de grande importância sócio-econômica para o homem do campo. Sendo, ela sozinha, responsável pelo fornecimento de 40% de toda proteína animal consumida pela população rural.
Por outro lado, os rebanhos caprinos e ovinos, nestes tempos de seca, se não forem bem manejados, especialmente em relação ao tamanho do rebanho e à qualidade produtiva dos indivíduos, torna-se um fator de perda de receita, de desperdício do patrimônio e de agressão ao meio ambiente, na medida em que agrava a perda de peso dos animais pela falta de forragem, eleva-se a mortalidade do rebanho, afora provocar uma considerável degradação dos solos, pela forte pressão de pastejo.
Assim, o uso da prática do descarte orientado nos rebanhos caprinos e ovinos, em época de seca, é uma alternativa que, certamente, irá reverter essa situação, ou seja: promoverá a redução do número de animais, sem prejuízo à produção do rebanho; propiciará a manutenção do peso com redução da mortalidade dos indivíduos e reduz a pressão de pastejo, favorecendo a sustentabilidade ambiental.
Portanto, pela a importância que estes animais apresentam a melhor convivência do homem do campo com a seca, na Região, passa, necessariamente, pelo manejo adequado dos rebanhos caprino e ovino.
O descarte orientado é uma prática de manejo que consiste na identificação e na retirada de animais velhos, defeituosos, improdutivos ou menos produtivos dos rebanhos caprinos e ovinos. Indivíduos estes muito comuns nos rebanhos da Região. Esta prática deve ser realizada a cada ano, especialmente em longos períodos de seca, ou a cada ciclo de produção. Pois, assim, facilita e permite aos produtores fazer a identificação dos animais com aquelas características negativas e, portanto, passivos de serem descartados. É importante que a quantidade de animais descartados, de uma só vez, não ultrapasse os 25% do rebanho, mesmo que se identifique a necessidade de se descartar um número maior de animais.
Esta tecnologia pode e deve ser realizada em todos os rebanhos caprino e ovino do País, especialmente no Nordeste, onde a carência de alimentos (forragens) nas pastagens nativas é muito severa, aliada, ainda, à falta de um manejo adequado, o que torna os rebanhos promíscuos e com baixa produtividade. A situação se agrava, drasticamente, nos longos períodos secos, que são comuns na Região.
A relação desta prática de manejo com a melhoria do homem na convivência com a seca, especialmente na Região Nordeste, centra-se nos resultados imediatos que ela confere aos produtores e familiares, aos rebanhos e ao meio ambiente.
Entre as inúmeras vantagens que o descarte orientado proporciona, citam-se: 1) promove o ingresso imediato de renda na propriedade, pela venda de animais descartados; 2) disponibiliza maior quantidade de forragem aos animais remanescentes e mais produtivos; 3) melhora, substancialmente, o padrão alimentar do produtor e sua família, pelo maior consumo dentro da propriedade; 4) favorece a sustentabilidade ambiental em áreas de pastagem, pela redução da carga animal e 5) melhora o padrão genético dos rebanhos, através da seleção dos indivíduos.
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